Na última segunda-feira, 9, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um alerta para reforçar o risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como semaglutida e tirzepatida.
No levantamento da agência, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos envolvendo esses fármacos entre 2020 e 7 de dezembro de 2025. No mesmo intervalo, também constam seis notificações de suspeitas de morte associadas a pancreatite. O órgão ressalta que os casos, por si só, não confirmam uma relação direta de causa e efeito com a medicação e atribui o alerta ao avanço do uso indevido das canetas.
Precedendo a notificação nacional, a autoridade reguladora do Reino Unido, a MHRA, informou que, entre 2007 e outubro de 2025, foram notificados 1.296 casos de pancreatite relacionadas ao uso desses medicamentos, incluindo 19 casos com desfecho de morte.
Embora o risco de pancreatite esteja previsto em bula, parte dos tratamentos com esses fármacos é feita fora das indicações aprovadas, desacompanhados de prescrição ou acompanhamento médico. Diante desse cenário, o objetivo, segundo a agência, é esclarecer parâmetros de segurança frente ao volume de notificações no Brasil e no exterior.
No comunicado, a Anvisa salienta que o monitoramento profissional é essencial pelo risco de eventos adversos graves, e pontua que o informativo não altera a relação de risco e eficácia dessas substâncias, já que os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos quando o uso respeita as indicações e o modo de uso descritos em bula.
Além da pancreatite, que ganhou visibilidade com os alertas recentes, o tratamento pode provocar efeitos gastrointestinais frequentes, como náuseas, sensação de estufamento após comer, azia e refluxo, além de constipação ou diarreia. Segundo a endocrinologista e chefe de departamento do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Ticiana da Costa Rodrigues, esses efeitos são muito frequentes, e, por isso, o tratamento exige uma preparação para saber reagir a tais situações.
O que é pancreatite?
👉 A pancreatite aguda é uma inflamação do pâncreas decorrente da autodigestão do pâncreas causada pelas próprias enzimas. O processo inflamatório costuma causar dor abdominal intensa, muitas vezes irradiada para as costas, e pode exigir internação.
Rodrigues explica que entre as causas mais comuns estão os cálculos biliares (pedras na vesícula), que podem surgir como mecanismo de resposta após uma perda intensa de peso, seja com medicamento ou não. A especialista explica que este não é um evento adverso novo das canetas, mas que a associação não é conclusiva.
Viabilizado pela Novo Nordisk, empresa responsável por comercializar medicamentos como Ozempic e Wegovy, o estudo SELECT analisou o risco de pancreatite associado ao princípio ativo semaglutida e verificou que o número de casos foi igual ao observado no grupo placebo.
Para além do debate sobre causalidade, dados mostram como essas suspeitas têm se repetido ano a ano. Segundo apuração da Folha de S.Paulo a partir do VigiMed, a evolução anual foi:
• 2020: 1 caso
• 2021: 21 casos
• 2022: 23 casos
• 2023: 27 casos
• 2024: 28 casos
• 2025: 45 registros, representando o maior volume anual de notificações até então.
Segundo definição do Hospital Israelita Albert Einstein, além dos cálculos biliares, o consumo excessivo de álcool também pode favorecer o desenvolvimento de pancreatite. É importante destacar que, sem diagnóstico e tratamento rápidos, o quadro pode evoluir para formas graves e até levar à morte.